VIDA

14/07/2015
A ajuda que atrapalha

Pessoas com transtornos de ansiedade, volta e meia, sentem que precisam de ajuda. Seja uma ambulância durante um ataque de pânico, ou alguém que lhes reassegure que as coisas terríveis com que eles andam se preocupando não estão na iminência de ocorrer, ou mesmo a expressão tranquila da aeromoça, apesar da turbulência. Durante a crise de ansiedade, vale qualquer coisa. Tudo o que a pessoa acha que precisa é de alguém que lhe convença que vai ficar tudo bem ou que lhe ajude a escapar da situação. De preferência, as duas coisas!

Profissionais de saúde, e também os pacientes em tratamento, sabem que esse tipo de apoio, na melhor das hipóteses, só ajuda a manter o transtorno. Isso porque, em momentos de ansiedade, os pensamentos terríveis geram uma sensação bastante desconfortável, a que chamamos ansiedade. A ansiedade é um modo de funcionamento em que o corpo e a mente produzem sintomas físicos, o paciente começa a se preocupar com os seus sintomas e a ter uma sensação de angústia muito grande. É natural que a pessoa queira se livrar desse desconforto o quanto antes. Muitas vezes, basta um abraço ou alguém que diga, com carisma, que “vai ficar tudo bem”. Ou mesmo a possibilidade de falar com um médico ao telefone, para fazer todos esses sintomas, magicamente, desaparecerem. Até a próxima crise... quando todo o ciclo se reinicia.

Familiares e amigos, ao verem a pessoa angustiada, tendem a fazer tudo para que aquilo acabe. O que, muitas vezes, estabelece padrões de interação bastante esquisitos, como um filho que tem que ligar para a mãe diversas vezes por dia para tranquilizá-la ou um marido que afere a pressão da esposa todas as noites. O mais angustiante disso tudo, é que, nem essa mãe, nem a esposa, estão menos ansiosas no longo prazo. A redução da ansiedade é apenas momentânea, como os mais próximos logo percebem.

Isso é ainda mais dramático com desconhecidos ou profissionais de saúde desavisados. Uma vez uma paciente teve um ataque de pânico no metrô, com sintoma principal de sensação de fraqueza nas pernas. Detalhe que sensação de fraqueza é completamente diferente de, de fato, perder força nas pernas. Só que quando ela se apoiou no corrimão da escada, apareceu um senhor que, heroicamente, pegou-a nos braços e levou para fora da estação. Após esse episódio, essa paciente não mais teve coragem de voltar ao metrô. Por medo, mas também por vergonha.

Outro caso emblemático foi um paciente que, durante um ataque de pânico, foi levado a um pronto socorro. Esse paciente não tinha nenhum histórico anterior de problemas cardiovasculares, mas saiu do atendimento, após um eletrocardiograma, com a suspeita de uma arritmia grave. Ao visitar um cardiologista no dia seguinte, ele o tranquilizou que os batimentos cardíacos dele pareciam esquisitos no exame porque a enfermeira havia colocado os eletrodos ao contrário! Parece anedótico, mas foram meses de insegurança e restrição das atividades, até ele se convencer de que havia sido, realmente, apenas um erro.

Além disso, frequentemente pacientes com preocupações relacionadas à saúde procuram “segundas opiniões”, visitando diversos profissionais de saúde. Muitas vezes, sem mencionar que já foram diagnosticados com um transtorno de ansiedade e que aquela é a vigésima visita deles a um médico novo... E assim reiniciam todo um ciclo de exames e procura pelas possíveis causas dos seus sintomas. O profissional, naturalmente, faz o seu papel de investigação clínica, fala das hipóteses diagnósticas. E lá se vão outras tantas noites em claro a procurar no Google quais as possíveis doenças terríveis que podem aparecer em um simples exame de sangue. Um ciclo perpétuo de ansiedade que se mantém, exatamente, por essas tentativas de obter “ajuda”.

Dessa forma, se você quiser realmente ajudar alguém que esteja passando por uma situação de ansiedade, não faça nada. Estátua! De preferência, não diga nada! Fique ao lado da pessoa, esperando a crise passar. Crise de ansiedade, apesar de muito desconfortável, não mata, não é sinal de que alguém esteja enlouquecendo, nem faz perder o controle. Ansiedade não é perigosa. É horrível, mas passa. Carinhosamente ajudar a pessoa a perceber que ansiedade dá e passa é a melhor ajuda que você pode dar.

Dra Aline Sardinha – Psicóloga Clínica e Coach (CRP:34.146)




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