VIDA

21/08/2015
A tirania das boas intenções

Qual a sua principal motivação ao decidir fazer ou dizer algo para alguém ? O que leva um pai a dizer à filha que ela está precisando emagrecer? Ou uma sogra a redecorar a sala da casa da nora de surpresa? Ou a sua avó a fazer para o almoço aquele delicioso suflê de jiló que ela aprendeu na televisão? Quem não se lembra da notícia que ganhou os jornais sobre uma senhora bem intencionada na Europa que resolveu restaurar por conta própria uma imagem antiga da igreja que ela frequentava e estragou para sempre uma relíquia histórica?

Muitos dos conflitos interpessoais decorrem de falas ou comportamentos que foram emitidos a partir de boas intenções, mas que não foram assim bem recebidos pelo outro. Situações deste tipo são verdadeiros paradoxos interpessoais, capazes de gerar mágoas profundas em todas as partes envolvidas. Quem decide fazer algo por ou para alguém de forma bem intencionada frequentemente se sente injustiçado ou incompreendido se aquilo não é bem recebida pelo outro.

Por outro lado, aquele que, de repente, recebe um comentário que o desagrada ou um comportamento indesejado, tende a reagir mal, levando em consideração o próprio sofrimento, e não as nobres intenções ocultas do outro. Se formos mais a fundo, o receptor da fala ou da ação indesejada/bem-intencionada estará sempre em uma situação sem saída. Ao se conectar com o próprio desconforto e reagir a isso, gerará no emissor sentimentos de mágoa, injustiça, ingratidão ou incompreensão. Mesmo que a pessoa perceba as tais "boas intenções" do outro, isso raramente é suficiente para fazer desaparecer o desconforto. E ainda adiciona uma boa dose de culpa.

Assim, de repente, essa pessoa se vê duplamente vítima da boa intenção não solicitada do outro: além de ter que suportar o desconforto gerado, ainda se sente culpado por saber que as intenções foram as melhores e que o outro está magoado pela reação de desagrado. Para completar a receita da confusão, basta que essas pessoas tenham um laço de amor ou amizade especial. Aí temos um perfeito caldeirão de emoções intensas: tudo estava bem até que, de repente, a partir de uma “boa-ação”, fica tudo ruim, sem as pessoas entenderem exatamente por que. Muitos conflitos de família, entre casais, ou mesmo entre grandes amigos, surgem dessa forma.

Então vamos pensar objetivamente, a sementinha dessa confusão geralmente surge do seguinte pensamento:
"Acho melhor fazer... (comportamento indesejado/bem-intencionado) ou dizer... (comentário indesejado/bem-intencionado) para ... (pessoa querida) porque... (causa da sua boa intenção) ou para que... (objetivo bem intencionado)". Certo?

Por que esse pensamento é o prenúncio do caos? Porque só leva em conta a perspectiva e as intenções de quem está pensando! O receptor da “boa-ação” não foi considerado em momento nenhum. Se ao pensamento acima se seguisse a reflexão:
“Como será que ...(a pessoa) vai se sentir se eu dizer/fizer ...(ação indesejada/bem-intencionada)?. Será que ... (a pessoa) gostaria que eu ...(ação indesejada/bem-intencionada)?.” Se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for positiva, possivelmente a boa-ação será reconhecida e bem recebida como tal.

Qualquer comportamento ou comentário direcionado ao outro, que não leve em consideração como esta pessoa vai se sentir, corre o risco de fazer com que essa pessoa descubra que você, na verdade, não pensou nela ao planejar a sua boa-ação. E isso é a fórmula da raiva! Por melhor que fossem as suas intenções, provavelmente é isso que a outra pessoa vai sentir. Talvez daí o velho ditado: “De boas intenções, o inferno está cheio”!.

Dra. Aline Sardinha – Psicóloga e Coach (CRP:34/146)





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COMENTÁRIOS
Muito pertinente esse texto. Quantos conflitos podem ser evitados levando em consideração esses aspectos! Ajudar não pode ser um ato impulsivo sem empatia.
Por: Monique Bertrand - Em: 21/08/2015 - 22:43:41
Resposta às perguntas frequentes do nosso dia a dia. Perfeito e muito sério. Afinal uma ação impensada, ou até mesmo pensada, pode causar uma reação em cadeia. Ocasionando várias rupturas em nossos laços afetivos. Obrigada mais uma vez.
Por: Lenilce Nogueira Aguiar - Em: 25/08/2015 - 00:00:39
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